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AMOR AUTISTA

Autistas são capazes de amar?

Está aí uma pergunta sobre a qual recebi muitas respostas divergentes. Uns dizem que não, pois autistas são possuem empatia, outros dizem que sim, mas de forma diferente.

Mas notei nas respostas um problema de comunicação: o sentido da palavra “amor”. Cada um usa essa palavra de uma forma diferente. Portanto essa questão colocada tem respostas tão confusas.

Pois bem. Amor é um querer bem. Mas de que forma? Comecemos diferenciado da paixão. Paixão é estado. Usa-se o verbo no sentido reflexivo: “Apaixonar-se”. E se usa justamente no sentido do estado: “Fulano está apaixonado”.

Sartre no “O ser e o nada” diz que três verbos classificam tudo nos humanos: ser ter e fazer. Paixão pertence ao ser.

E amar? Amar é um fazer. Não para todos, uns acham que é um ter. O ciúme é justamente uma das variantes do amor como ter: teme-se perder, e só se perde o que se tem.

Mas amar é um construir, portanto um fazer. Por isso se fala em construir relações. É aí que o bicho pega para autistas em geral.

Antes de prosseguir, é preciso relatar que do ponto estrito da sexualidade, autistas são como qualquer outra pessoa. Héteros, homos, cis, trans, não importa. São como os demais do ponto de vista de identidade de gênero e de orientação sexual. O que muda é a forma como sente o sexo, pois autista tem variações sensoriais. O corpo sente as coisas de forma diferente dos neurotípicos. Pra ter ideia, alguns autistas por exemplo não tem a sensação que nos manda urinar. Chegam a ter dor na bexiga, de tão cheia, mas não tem o comando de urinar. Isso é estranho prum neurotípico, mas essas variações sensoriais são característica do autismo.

Agora, na construção das relações a coisa começa a se complicar, justamente por ser esse o fator de maior problema na vida dos autistas. Nesse sentido, esse texto aqui é esclarecedor. Se puder, leia.

Autistas possuem empatia diferente. Para alguns, imatura ou deficiente. Mas não importa, empatia diferente. Com isso, há uma dificuldade justamente em ler os sinais sociais. Para as outras pessoas, que esperam algum tipo de retribuição, isso no mínimo é frustrante. Ou como disse uma ex-namorada minha: “você parece autista, não se toca!”. (bom, eu não pareço, eu sou).

Muitos autistas não dominam as regras de relacionamento social o suficiente para conseguirem relacionamentos amorosos um pouco estáveis. Grande parte deles – eu inclusive – não possuem uma memória afetiva. Eu, por exemplo, decoro datas de aniversário por associação. Como tenho facilidade com datas históricas, associo a elas. Uma colega de graduação, que não vejo há uns 25 anos, por exemplo, faz aniversário justo no dia da II Batalha de El Alamein, quando Montgomery derrotou Rommel. Eu não gravei a data do aniversário da moça por gostar ou não dela, mas em razão da coincidência da data.

Foi assim que gravei os aniversários de pai, mãe e irmãos. Algumas ex-namoradas minhas se irritavam com isso. Como disse uma: “então nosso relacionamento não tem importância pra você?”.  Como explicar essa falha neurológica?

Isso não quer dizer que não se goste da pessoa. E o gostar autista é diferente.

Como a vida de um autista é antes de tudo incômodo, seja nível 1, seja nível 2 ou 3, não incomodar já é algo importante.

E o que incomoda? Muita coisa. Por exemplo, às vezes o tom de voz dói nos ouvidos. Às vezes o tipo de perfume que a pessoa usa dá tontura. Às vezes a pssoa é muito pegajosa e não respeita aqueles momentos em que até a roupa que se usa está incomodando.  Mas veja, não por que o gato não pula no seu colo que ele não goste de você. Gatos são meio autistas no comportamento.

Mas repito que a questão sensorial é determinante no mecanismo de atração e repulsa. E não há como “acostumar”o autista a algo que o incomode. Eu juro que tentei por anos, e o que ganhei foram pontos de gliose justamente no setor sensorial: a corda arrebenta onde é mais forçada. E aí meus problemas com som e cor simplesmente pioraram.

E aí: a pessoa sempre se veste com a cor que dá náuseas. A pessoa tem o tom de voz que é desafinado em qualquer escala musical conhecida. (conheci uma moça que falava parecendo emitir trítonos – e trítonos foram chamados de “diabolus in musica”).

A repulsa é natural.

Nos relacionamentos, imagine a pessoa que usa o telefone pra qualquer coisa. Aspies são famosos por preferirem textos. Aí o aspie começa a não atender o telefone. Não se toca do que a moça está querendo expressar. Irritantemente leva tudo ao pé da letra – aspies são literais – e isso gera um monte de situações constrangedoras. Principalmente com aquelas moças que usam um liguajar “vago-específico”.

Justamente pois aspies e outros autistas tem uma espécie de cegueira pro mundo social. Simplesmente não entendemos. Pra muito autista, “afogar o ganso” é maltrato animal, pura e simplesmente. E não entendemos diversas outras regras relacionadas à vida social.

As mulheres é que mais sofrem com os autistas. A se lembrar que na proporção mais igualitária são 4 homens autistas pra cada mulher autista. Há quem fale que sejam 16 homens autistas pra cada mulher autista, mas provavelmente essa  proporção caracteriza-se por sexismo no subdiagnóstico feminino do problema. Mas na proporção mais igualitária, 80% dos autistas são homens.

Como uma grande proporção deles é hétero, procurarão mulheres hétero. Aspies podem ser interessantes pela intelgiência, pela memória exacerbada que pode revelar grande cultura, e etc. Isso pode ser sedutor.

Mas e a continuação destes relacionamentos? E quando o aspie não acompnhar nos compromissos sociais? E  quando o aspie não “se tocar” numa série de situações? E quando a desorganização que lhe é intrínseca, a par da ritualização, e do tempo gasto com as fixações, atrapalhar a vida??

Autistas tem fixações. Gastam um tempo absurdo com elas. Pode ser divertido pra outrem no início, mas a se lembrar que esses asssuntos perdurarão por anos. Como disse alguem sobre  criança autista: a criança neurotípica vê o desenho da Peppa Pig duas semanas, a criança autista vê por dois anos. E se isso numa criança é tolerável, o será no caso de um adulto fixar-se num assunto qualquer por anos?

São vários os fatores que atrapalham o relacionamento amoroso de um aspie. Mas isso não quer dizer que ele não se apaixone ou não ame, embora tenha dificuldades de expressar isso. Se a parte contrária aceitar isso, nada obsta o relacionamento ir para frente. Mas para muita gente, isso é um obstáculo intransponível. Principalmente para aquelas pessoas que possuem algum tipo de carência afetiva e precisam de reforços diários de afeto. Em resumo, carentes e aspies não se bicam.

Namorar e casar com aspie pressupõe compreensão e aceitação, não da boca pra fora. Por outro lado, o/a aspie tentará fazer o que sempre faz, sempre se esfoça: parecer neurotípico/a. Apesar de todas deficiências.

Há um filme, “Melhor é impossível“, que possui um personagem que sofre de TOC, e começa um relacionamento. Numa cena, a moça lhe pede um elogio, e ele responde: “voltei a tomar meus remédios”. Afinal, ele queria ser uma pessoa melhor para ela.

Aspies vivem assim seus relacionamentos: numa linha estreita como um fio de navalha, equilibrando-se. Quanto maior a compreensão e tolerância do outro lado, mais largo fica a linha.

Por outro lado, quanto mais carente de atenção for a outra pessoa, pior será o relacionamento. Boa parte dos aspies ainda por cima apresentam TDAH. Um lado requer atenção, o outro tem déficit…. Receitinha pra dar caca.

Bom, está na hora de encerrar o texto. Não preciso explicar a aspies suas dificuldades, cada um sabe dos seus problemas muito bem. Mas tudo seria mais fácil se do resto do mundo houvesse mais aceiação. Afinal, só queremos alguém que ria conosco, e não ria de nós. Pra isso já há o resto do mundo inteiro.

 

 

 

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